Sentir-se feliz, animada, produtiva e cheia de energia faz parte da vida. Há períodos em que estamos mais motivadas, dormimos um pouco menos, fazemos mais planos e sentimos vontade de começar novos projetos.
Por isso, quando alguém começa a conhecer melhor o transtorno bipolar, pode surgir uma dúvida desconfortável:
“Será que eu estou realmente feliz ou isso pode ser mania?”
A diferença não está simplesmente em estar muito feliz ou ter muita energia. Um episódio maníaco envolve um conjunto de alterações no humor, na energia e no comportamento, que representam uma mudança importante em relação ao funcionamento habitual daquela pessoa.
Mania não é simplesmente “felicidade demais”
Essa é uma das confusões mais comuns.
Durante um episódio de mania, o humor pode estar muito elevado, expansivo ou eufórico. Mas nem sempre a pessoa parece extremamente feliz.
Em alguns casos, irritabilidade, impaciência e agitação podem ser manifestações importantes.
Por isso, observar somente se alguém está alegre não é suficiente.
É necessário analisar outras mudanças que estão acontecendo ao mesmo tempo.
Quais sinais podem aparecer durante um episódio de mania?
Os sintomas podem variar, mas alguns sinais que merecem atenção incluem:
- aumento incomum de energia e atividade;
- necessidade reduzida de sono;
- fala mais rápida ou maior necessidade de falar;
- pensamentos acelerados;
- dificuldade de manter a atenção;
- autoestima excessivamente elevada;
- sensação de capacidade ou confiança muito acima do habitual;
- aumento da impulsividade;
- envolvimento excessivo em projetos ou atividades;
- gastos financeiros fora do padrão;
- decisões arriscadas;
- aumento da libido;
- irritabilidade ou agitação intensa.
O mais importante não é encontrar um desses sinais isoladamente.
É observar o conjunto, a intensidade, a duração e o quanto aquele comportamento representa uma mudança em relação ao habitual.
Dormir pouco e continuar cheia de energia merece atenção?
Pode ser um sinal importante quando aparece junto a outras alterações.
Existe diferença entre dormir quatro horas porque você precisava terminar alguma coisa e passar o dia seguinte cansada e sentir que praticamente não precisa dormir, mesmo depois de várias noites dormindo menos.
Durante episódios de mania ou hipomania, algumas pessoas apresentam redução importante da necessidade de sono e, ainda assim, continuam sentindo muita energia.
Por isso, alterações no sono são uma informação especialmente relevante durante a avaliação do humor.
E quando a pessoa está muito produtiva?
Produtividade, criatividade e motivação não são doenças.
O que pode chamar atenção é uma mudança muito intensa em relação ao funcionamento habitual.
A pessoa pode iniciar diversos projetos simultaneamente, assumir compromissos demais, fazer planos pouco realistas ou sentir que consegue realizar praticamente qualquer coisa.
Em um primeiro momento, isso pode até parecer positivo.
O problema é que, dependendo da intensidade, essa aceleração pode começar a produzir consequências na vida profissional, financeira, familiar ou afetiva.
A própria pessoa percebe que está diferente?
Nem sempre.
Durante determinados episódios, a sensação pode ser justamente de estar melhor do que nunca.
A pessoa pode sentir-se mais confiante, produtiva, sociável ou criativa e não perceber aquelas mudanças como um problema.
Em algumas situações, familiares ou pessoas próximas percebem alterações importantes antes dela.
Por isso, informações sobre mudanças observadas por pessoas que convivem com o paciente também podem ser úteis durante uma avaliação, quando apropriado.
Mania e hipomania são a mesma coisa?
Não.
As duas envolvem alterações do humor e aumento de energia ou atividade, mas existem diferenças relacionadas principalmente à intensidade, duração e impacto no funcionamento.
A mania é mais intensa e pode causar prejuízo significativo, exigir hospitalização em algumas situações ou apresentar sintomas psicóticos.
A hipomania é menos intensa e não provoca o mesmo grau de comprometimento característico de um episódio maníaco.
Mesmo assim, episódios de hipomania são clinicamente importantes e fazem parte da avaliação de determinados quadros de transtorno bipolar.
Então como diferenciar felicidade de uma alteração do humor?
Não existe uma pergunta única capaz de fazer essa diferenciação.
Alguns pontos podem ajudar na investigação:
Isso é muito diferente de como eu normalmente sou?
Minha necessidade de sono mudou significativamente?
Minha fala ou meus pensamentos estão mais acelerados?
Estou tomando decisões que normalmente não tomaria?
Pessoas próximas perceberam uma mudança importante em mim?
Esse estado está começando a trazer consequências para minha vida?
Essas perguntas não substituem uma avaliação profissional, mas ajudam a mostrar por que a diferença entre felicidade e mania envolve muito mais do que simplesmente medir o quanto alguém está animado.
Ter transtorno bipolar significa desconfiar de toda felicidade?
Não.
Receber um diagnóstico ou investigar transtorno bipolar não significa que toda alegria, entusiasmo ou período produtivo deva ser interpretado como sintoma.
O objetivo do acompanhamento é justamente ajudar a pessoa a conhecer melhor seu próprio padrão de funcionamento.
Com o tempo, observar sono, energia, comportamento e mudanças de humor pode ajudar na identificação precoce de alterações que mereçam atenção.
A felicidade não precisa ser transformada automaticamente em sintoma.
Mas mudanças muito intensas ou diferentes do padrão habitual também não devem ser ignoradas.
Conhecer seus próprios padrões é mais útil do que vigiar cada emoção
Quando existe transtorno bipolar, compreender como os episódios costumam começar pode ser uma ferramenta importante no acompanhamento.
Algumas pessoas percebem primeiro mudanças no sono. Outras notam aceleração dos pensamentos, aumento da impulsividade ou uma quantidade incomum de novos projetos.
Esse padrão é individual.
Por isso, mais importante do que perguntar “estou feliz demais?” é observar se existe uma mudança persistente e significativa no conjunto do seu funcionamento.
Se você percebe períodos de aumento incomum de energia, redução da necessidade de sono, aceleração dos pensamentos ou mudanças de comportamento que se repetem ao longo do tempo, uma avaliação individualizada pode ajudar a compreender melhor esses episódios.
Percebe mudanças intensas no seu humor, sono ou energia e tem dúvidas sobre o que elas podem significar?


